Carta de Agradecimento a Minha Avó

Quero dedicar estas linhas a seguir a uma figura ímpar, que marcou cada etapa da minha vida e ajudou e muito a compor a pessoinha que sou hoje. Uma verdadeira fonte de inspiração.

Mulher forte essa, porreta que só vendo… criou oito netos (fora os agregados), seis bisnetos que ela conheceu em vida, com mais dois a caminho que ela irá abençoar de maneira especial, com um toque mais angelical, eu diria.

Vó, falar de você não é tão fácil quanto parece.

Talvez porque você não fizesse a linha tradicional das vovós, do tipo fofinha com um quê de Dona Benta, sabe? Você era um misto de mulher alta e esguia, muito vaidosa, que vivia com as unhas pintadas de vermelho e era empoderada até o último grau quando o assunto enveredava para política.

Ah, como esquecer da senhora falando mal do Lula durante os almoços em família, ficando vermelha de raiva e dizendo todos os palavrões possíveis e impossíveis ao pronunciar seu nome e tudo mais que pudesse envolver a figura de nosso ex presidente petista.  Mesmo que a senhora deixasse todos ao seu redor enlouquecidos com isso, nos permitia rir um pouco mais e quiçá refletir sobre nosso pais, não é mesmo?

Mas quem disse que eu pedi uma vozinha comum, igual aquelas dos livros?
Você tinha o sorriso mais iluminado de todos e ainda assim, cozinhava como ninguém!
Aliás, que saudades das suas panquecas de carne moída com molho de tomate! Eu simplesmente amava! E olha que nem sou fã de carne, hein. Me lembro que a senhora sempre deixava duas travessas prontinhas no forno quando sabia que íamos pra Santos, visitá-la. Acho até que isso devia causar ciúmes na minha mãe, de tanto que eu desejava comer aquelas panquecas…

Obrigada vó, por ensinar que o melhor desjejum da terra é um belo prato fundo de mingau de aveia (salgado) acompanhado de um copo de suco de laranja geladinho e natural. Hábito adquirido com você na infância, que foi e voltou, é verdade, mas que nunca me abandonou, principalmente nas minhas duas gravidezes. Que delícia!

E lembra, vó, uma vez que a senhora me deu ovo podre pra comer? Sim, foi sem querer. E eu passei mal, obviamente. Você com aquela saudável mania de nos oferecer  ovo quente com uma pitada de sal e limão numa colher de sopa, eis que um belo dia o ovo estava podre e eu o engoli majestosamente. Ai, que me dá azia só de lembrar. Só sei que você ficou com a maior cara de arrependimento do mundo neste dia, tadinha, e fez de tudo para remediar a situação me dando chá de todas as ervas que encontrava pela frente e inclusive me ofereceu um outro ovo (não podre) pra comer! Hahahahaha e eu comi!

Ai, vó, só a senhora mesmo. Praticamente uma curandeira da baixada santista…

Você também nos ensinou desde sempre que o uso de protetor solar era imprescindível para uma vida saudável, evitando câncer de pele. Lembro de você correndo atrás de todos os netos doida para nos besuntar de creme antes de sairmos para um dia de praia. O discurso para nos convencer era sempre acalorado numa época em que ninguém ainda profetizava:  ‘use filtro solar…’

Que saudades disso tudo. Você sempre tão à frente do seu tempo, tão presente, tão mãe, amiga e irmã e altamente disponível para todas as horas…

Você nos permitiu olhar o horizonte e acreditar que tudo era possível. Que fantasiar, sem dúvida, fazia parte dos melhores momentos da vida.

Lembrarei com carinho das muitas versões de histórias que a senhora contava incansavelmente sobre a mamãe galinha e seus pintinhos…

E de quando meu apelido ainda era Branca de Neve, carinhosamente dado por você, porque eu era a neta mais branquinha de todas… Já a Silvia, era a Bela Adormecida, por sua fama, na época, de dormir demais. E a Fernanda, a Cinderela, pois vivia perdendo suas coisas por onde passava …

Mas não acaba por aí. Você realmente tinha o dom de ir além.
Durante as férias, você enfiava todos os netos num ônibus e então saíamos para realizar as mais diversas atividades que a cidade de Santos podia oferecer. Era cinema, teatro, praia, aquário pra ver o peixe-boi e tudo mais que tínhamos direito. E na sua casa, encontrávamos, além de um ninho acolhedor, uma fabriquinha de pintar, bordar, desenhar, escrever, representar…
Seus armários de roupa eram um baú cheio de ideias que alimentava nossa imaginação.

Com você aprendi que quem canta seus males espanta, que homem não gosta de mulher que não sorri, que quem não se comunica se estrumbica e quem tem boca vai a Roma!
Aprendi muito sobre oração subordinada, verbos transitivos diretos e indiretos e conjugações verbais das mais cabeludas…

Tenho muito o que dizer de você, vó. Uma vida inteira.
Obrigada por se fazer presente mesmo quando o cansaço e as dores da idade falavam mais alto.

Agradecerei sempre por ter estado ao seu lado em seus últimos momentos com a gente, com a sensação leve de que a senhora ainda viveria mais uns dez anos, pelo menos.
Cada momento que passamos juntas foi precioso e ficará gravado na memória com muita alegria.

Obrigada por conhecer a Helena, por acalmar suas cólicas algumas vezes e niná-la em seus braços, repetindo de tempo em tempo como ela estava ficando cada dia mais linda.

Obrigada vó! Mais uma vez…

Quantas vidas precisarei viver para dizer o quanto sou grata a você?

Descanse em paz.
Obrigada por tudo. Sempre.

Te amo

Carol

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